Rafaela deambulava pelas ruas em busca de algo que não sabia exactamente o que era. Passavam por si todo o tipo de pessoas às quais tentava decifrar as suas vidas, angústias e desejos. Quiçá também eles com as mesmas dúvidas que ocupavam agora a sua mente.
A tarde apresentava-se quente, o sol dava ânimo aos corredores, às aves que buscavam alimento no rio e a todos os seres que por ali andavam sem serem vistos. As crianças brincavam energicamente ao longo do paredão. Porém nada daquilo era relevante aos olhos de Rafaela, insistindo num olhar vago, numa melancolia sem fim. Talvez o calor a fizesse assim, pensava, ao mesmo tempo que sabia iludir-se com tais pensamentos. A causa de tanto pensamento era só um e chamava-se Rodrigo.
Rodrigo veio inquietar-lhe a paz de espírito. Era a revolução quando ela era a acalmia. Ele não estava nos seus planos. Tinha uma carreira de sucesso, viajava quatro a cinco vezes por ano, a casa que idealizava, assim que dramas amorosos não faziam parte da sua rotina. No entanto, Rodrigo era uma presença constante no dia-a-dia dela. E tudo mudou num dia quente no terraço de casa, quando permitiu que aquele homem entrasse e a tomasse nos braços.