Não sei o exacto momento em que me apaixonei por ti. Sei que um dia o meu pensamento corria sempre ao teu encontro, que a tua imagem me invadia constantemente. Até quando estava rodeada por amigos e família. Quando cozinhava e deixava a água fervente transbordar pelo fogão. Ou ainda quando esperava o metro e o deixava passar. Sei agora que este sentimento que nutro por ti me devasta, que me arranca o amor próprio. Sei que a minha razão não concorda com os modos do meu coração. Que a distância me devolve àquilo que sou, contudo, afasta-me de ti.
É bem verdade o que Blaise Pascal dizia: o coração tem razões que a própria razão desconhece. Talvez o coração ignore as razões da razão. Pois se desse azo à razão estaria longe de ti, o mais longe que alguém alguma vez pode estar, porém a distância espacial não resolve a distância mental. Assim, vou tentar apaixonar-me por outro alguém que me queira ao mesmo tempo que eu o quero, que me deseje como eu o desejo. Que fale comigo como tu nunca me falaste, que me leve a passear apenas pelo prazer da minha companhia. Que debata comigo dilemas e filosofias sem fim enquanto saboreamos um gelado no calor do verão ou enquanto bebemos um chá no frio do inverno.
Quiçá seremos aqueles que nos amamos estando afastados um do outro. Que nos recordaremos das nossas noites de paixão quando já tivermos construído outras famílias e sentirmos que não é ali que devíamos estar, quando já velhos olharmos para as rugas da nossa experiência e reflectirmos em como estaríamos melhor nos braços um do outro. Quando pensarmos que ninguém compreendia o nosso amor.


















